Após aquisição da Didi, startup brasileira sofre com falhas em aplicativo e saída de funcionários descontentes
Por Mariana Lima
- O Estado de S. Paulo
Em janeiro, empreendedores e investidores brasileiros comemoraram a venda do
aplicativo de transporte 99 para
a gigante chinesa Didi Chuxing por US$ 600 milhões. A aquisição fez da startup, fundada por Paulo Veras, Ariel Lambrecht e Renato Freitas, o primeiro unicórnio brasileiro –
startup com valor de mercado de US$ 1 bilhão. Mais que abastecer o caixa da
99,
que precisava de dinheiro para continuar a disputar a “guerra” contra o
Uber no Brasil, a aquisição virou símbolo do amadurecimento
do ecossistema brasileiro de startups.
Contudo, seis meses depois, uma parte da animação sobre o negócio se esvaiu – dentro e fora da
99. Assim que a aquisição foi finalizada,
a startup passou a incorporar tecnologia chinesa
ao app brasileiro, o que levou a diversas falhas. Nos últimos meses,
motoristas e passageiros têm usado as redes sociais para reclamar sobre o
aplicativo. “Paguei pelas corridas em dinheiro o mês todo, mas elas
foram debitadas também no cartão de crédito”, relatou ontem no Twitter, o
usuário Paulo Sousa. “Me ofereceram um cupom de R$ 10.” Outra pessoa
reclamou da lentidão. “Fica naquela tela cinza e não vai para a frente”,
afirmou na rede social, Vinícius Madureira.
Quem poderia resolver tais falhas, contudo, se viu de mãos atadas. Programadores que deixaram a
99 nos últimos meses, ouvidos pela reportagem do
Estado,
contaram que a equipe de engenharia brasileira já mapeou mais de mil
erros no aplicativo, mas foi orientada a esperar que desenvolvedores da
Didi na China as corrigissem.
Em entrevista ao
Estado, o atual presidente da
99,
Matheus Moraes, nega que o aplicativo continue a apresentar erros e diz
que, no início da integração, elas de fato ocorreram. “Foi uma
oportunidade para colocar as equipes de Brasil, China e outros países
para trabalharem juntas”, explica.
Conheça o novo escritório da 99 em São Paulo
O volume de reclamações nas redes sociais, no entanto, mostra que
muitos dos problemas ainda não foram resolvidos. Nesse ínterim, a
99 tem apostado numa
política agressiva de descontos para reter seus 14 milhões de passageiros.
A estratégia, porém, tem data de validade, segundo o professor da
Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio
Vargas (FGV-SP), Luiz Alberto Albertin. “A boa vontade dos usuários não
será suficiente se a empresa não resolver urgentemente seus problemas
estruturais”, diz.
De saída. Um mal nunca vem só, já dizia o
provérbio. Insatisfeitos com a nova gestão da empresa, muitos
funcionários decidiram sair nos últimos meses. Segundo levantamento
feito pelo Estado, com base em dados da rede social profissional
LinkedIn, ao menos 50 pessoas deixaram a 99 entre janeiro e junho deste
ano, sendo a maior parte desenvolvedores – hoje, a companhia têm 900
funcionários no Brasil e afirmar ter 100 vagas abertas.
Mais de dez profissionais foram trabalhar na Yellow, startup de compartilhamento de bicicletas fundada por Lambrecht e Freitas, cofundadores da
99,
após deixarem a empresa. Em nota, Freitas afirmou que não vê relação
entre a saída das pessoas da 99 e contratação pela Yellow. “Muitas
pessoas têm procurado a gente pelo nosso propósito de trazer algo
positivo para as cidades”, diz ele. Outras startups que também
contrataram ex-colaboradores da
99 incluem o app de delivery Rappi, Nubank e Loggi.
Moraes, da
99, afirma que a empresa tem
investido em melhorar a integração
entre os brasileiros e chineses. Entre as ações, a empresa está
oferecendo aulas de mandarim para brasileiros e de português para os
chineses, para a comunicação funcionar melhor. Outra estratégia, diz
Moraes, é envolver os profissionais em projetos globais.
“A saída dos funcionários está mais relacionada aos ciclos profissionais de cada um do que à insatisfação”, diz o presidente da
99. “Nos orgulhamos de formar especialistas para outras empresas e os que ficam conosco têm oportunidades.”
Em entrevista ao
Estado, ex-engenheiros da
99, que não quiseram se identificar, dizem que a rotina dentro da startup começou a mudar já no
primeiro investimento da Didi na startup,
de US$ 100 milhões, feito em janeiro de 2017. A gigante chinesa, que
tem valor de mercado estimado em US$ 56 bilhões, tem apostado em
investir em empresas locais no mesmo segmento como estratégia para
ampliar sua influência global.
Futuro. Para Paulo Furquim de Azevedo,
coordenador do Centro de Estudos em Negócios do Insper, os problemas de
integração da 99 já eram esperados, devido às diferenças culturais entre
Brasil e China. Porém, ao limitar a atuação de engenheiros locais, ele
acredita que a
99 pode perder um diferencial importante frente aos rivais.
“O coração e a alma da
99 sempre estiveram na
equipe de engenheiros, até porque a startup foi criada por dois
programadores”, diz Azevedo. “Quando isso deixa de existir, a startup
perde a essência completamente.”
Por enquanto, Moraes minimiza os problemas e tenta olhar para as oportunidades de negócio da
99: expandir seu alcance para a periferia,
a exemplo do que fez o Uber, é prioridade. “Vamos atender moradores de bairros de baixa renda, onde a
99 ainda não está presente.”